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1.974 cidades brasileiras não têm um único jornal, rádio ou site de notícias

1.974 municípios brasileiros não possuem um único veículo de comunicação local. São quase 12 milhões de pessoas adultas invisíveis para marcas, governos e algoritmos.

O Brasil tem 5.570 municípios. Desses, 1.974 não possuem um único veículo de comunicação local — nem jornal, nem rádio, nem site de notícias. São os desertos de notícias: territórios onde a informação não nasce, não circula e não retorna.

Não estamos falando de vilarejos remotos. Cidade Ocidental (GO), com quase 65 mil habitantes adultos, não tem mídia local. Santa Izabel do Pará, com 54 mil. Horizonte (CE), com 54 mil. Cidades inteiras que produzem, consomem, votam — mas não informam nem são informadas.

O conceito de desertos de notícias foi mapeado no Brasil pelo Atlas da Notícia, projeto do Instituto para o Desenvolvimento do Jornalismo (Projor) que desde 2017 registra a presença — e a ausência — de veículos de comunicação em cada município brasileiro. No NexOS, essa classificação se integra ao método das Tramas do Invisível para transformar o dado bruto em inteligência territorial.

O mapa da invisibilidade

Quando cruzamos os dados do Atlas da Notícia com a base demográfica do Censo IBGE 2022, o retrato é estrutural:

Nordeste lidera em proporção: 46,3% dos municípios são desertos de notícias. São 830 cidades e quase 6,5 milhões de adultos sem acesso a informação local. É a região que mais sofre com o que o geógrafo Milton Santos chamava de “espaços opacos” — territórios que existem no mapa mas não existem no circuito da informação.

Sudeste, apesar de concentrar a maior parte dos veículos do país, ainda tem 32% de municípios desertos — são 533 cidades, a maioria no interior de Minas Gerais e São Paulo.

Centro-Oeste é a região com menor proporção de desertos (15,8%), influenciado pela concentração de mídia em Brasília, Goiânia e Campo Grande.

Região Municípios desertos % do total População adulta sem mídia
Nordeste 830 de 1.794 46,3% 6.490.962
Norte 159 de 450 35,3% 1.207.771
Sudeste 533 de 1.668 32,0% 2.694.877
Sul 378 de 1.191 31,7% 1.326.579
Centro-Oeste 74 de 467 15,8% 317.839
Total 1.974 de 5.570 35,4% 12.038.028

Doze milhões de pessoas. Mais do que a população adulta de Portugal.

A concentração dos oásis

No outro extremo estão os oásis — territórios com alta densidade de veículos de comunicação. São Paulo lidera com 1.684 veículos cadastrados. Brasília tem 886. Rio de Janeiro, 800. Curitiba, 731.

Os 10 maiores oásis concentram mais de 6.400 veículos — quase o mesmo número que os 3.596 municípios com alguma mídia somados. A informação no Brasil não é distribuída: ela é concentrada em ilhas, com oceanos de silêncio entre elas.

Essa concentração não é acidental. O modelo de financiamento da mídia brasileira — historicamente dependente de publicidade de grandes anunciantes e de verbas governamentais — privilegia praças com audiência mensurável. É o que a Associação Nacional de Editores de Revistas (ANER) e a Associação Nacional de Jornais (ANJ) documentam há anos: a receita publicitária segue a concentração demográfica, criando um ciclo onde quem já tem mídia atrai mais investimento, e quem não tem fica cada vez mais invisível.

O que isso significa para quem planeja mídia

Se você é um planejador de mídia, esses números deveriam mudar a forma como você opera:

1. O inventário programático não existe nesses territórios. Sem veículos locais, não há impressões, não há audiência mensurável, não há espaço para compra programática. A mídia digital nessas regiões é 100% plataforma — Google, Meta, TikTok. O dinheiro sai do território e não volta. O relatório Digital News Report do Reuters Institute documenta esse fenômeno global, mas no Brasil a escala é continental.

2. Rádio e impresso ainda são estruturais. Dos 40.759 veículos mapeados pelo Atlas, 8.540 são rádios e 8.812 são impressos. Em muitas cidades médias, a rádio AM/FM é a única fonte de informação local. Ignorar esses meios é ignorar a realidade do Brasil.

3. A cobertura online é ilusória. São 20.062 veículos classificados como “Online” — mas estão concentrados nas capitais e cidades-polo. A cauda longa da internet brasileira é mais curta do que parece. Dados da Pesquisa TIC Domicílios do Cetic.br mostram que o acesso à internet cresceu, mas a produção de conteúdo local não acompanhou.

4. Dados demográficos sem contexto territorial mentem. Você pode saber que um município tem 50 mil habitantes, renda média de R$1.800 e 60% de famílias tipo B7. Mas se não sabe que ele é um deserto de notícias, está planejando no escuro. É exatamente isso que o método dos Arquétipos e Perfis Municipais resolve: cruzar dados demográficos com contexto territorial.

De deserto a oásis: o papel da inteligência territorial

O conceito de desertos e oásis não é uma classificação binária. É um espectro. Existem municípios com um único veículo — frágil, provavelmente subfinanciado, possivelmente dependente de verba pública. E existem outros com dezenas de veículos competindo por atenção e receita.

A inteligência territorial que o NexOS propõe é justamente a capacidade de ler esse espectro — cruzar a densidade de mídia com a demografia, a economia, os fluxos financeiros, as vocações produtivas e os padrões de consumo de cada território. O método das Tramas do Invisível integra quatro camadas — Pessoas, Mercados, Momentos e Inventários — para transformar o silêncio dos dados em decisão.

Quando uma marca descobre que Barreirinhas (MA) — portal dos Lençóis Maranhenses, 43 mil adultos, destino turístico internacional — é um deserto de notícias, isso não é um problema. É uma oportunidade: a chance de ser a primeira presença informativa e publicitária relevante naquele território.

Os dados por trás desta análise

Este artigo utiliza dados do Atlas da Notícia cruzados com a base demográfica do Censo IBGE 2022, registros de outorgas de radiodifusão da Anatel e a base proprietária de inventário de mídia local da Alright — tudo processado pela plataforma NexOS. Os dados incluem 40.759 veículos de comunicação cadastrados em 3.596 municípios brasileiros.

A metodologia de classificação Oásis/Deserto do NexOS vai além da presença ou ausência de veículos: incorpora diversidade de segmentos (online, rádio, TV, impresso), dados de outorga e cobertura da Anatel, inventário de mídia local mapeado pela Alright, alcance estimado e cruzamento com indicadores socioeconômicos territoriais. Para entender como essa classificação se encaixa no modelo completo, leia o capítulo Desertos e Oásis: a geografia da informação do nosso guia.

O território sente antes de falar

Cada deserto de notícias é um lugar onde histórias não são contadas, onde dados não viram decisões, onde marcas não encontram caminhos para chegar. Mas o território existe, pulsa, consome e produz — com ou sem mídia para registrar.

A pergunta que fica não é se esses 12 milhões de pessoas existem. É por que continuamos planejando como se não existissem.


Este artigo faz parte da série Tramas — inteligência territorial como método. Os dados podem ser explorados na plataforma NexOS. Leia também: Manifesto — Tramas do Invisível e o ensaio Tramas — por Domingos Secco.

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