
Os Vários Países Dentro do Brasil
E o preço de não enxergá-los — há 12 milhões de brasileiros adultos que não existem para marcas, governos e algoritmos.
E esse é apenas o número que conseguimos medir. O Brasil que ignoramos é muito maior do que imaginamos — e o custo dessa ignorância é estrutural.
I. A ficção do país único
Existe uma mentira confortável que sustenta boa parte do planejamento estratégico feito no Brasil — em mídia, em marketing, em políticas públicas, em investimento. A mentira é esta: o Brasil é um país.
Não é.
O Brasil é uma federação de países que operam em velocidades diferentes, com economias distintas, culturas sobrepostas, dinâmicas familiares próprias e padrões de consumo de informação que não se comunicam entre si. O país do agronegócio de Mato Grosso não é o país do varejo de rua de Recife. O país da economia criativa de São Paulo não é o país da informalidade estrutural do Maranhão. O país do turismo internacional dos Lençóis Maranhenses não é o país da indústria automotiva do ABC. E todos eles dividem o mesmo CNPJ de nação.
Essa não é uma observação retórica. É uma constatação empírica que agora pode ser medida, mapeada e — o mais importante — convertida em inteligência operacional. A plataforma NexOS, criada por Domingos Secco Junior a partir da metodologia que ele chama de Tramas do Invisível, acaba de colocar números brutais sobre essa desconexão.
Os números são estes: 1.974 municípios brasileiros não possuem um único veículo de comunicação local. Nem jornal. Nem rádio. Nem site de notícias. São os chamados desertos de notícias — territórios onde a informação não nasce, não circula e não retorna. E nesses desertos vivem quase 12 milhões de pessoas adultas. Mais do que a população adulta inteira de Portugal.
Doze milhões de fantasmas econômicos.
II. A geografia da invisibilidade

Os dados que o NexOS organizou — cruzando o Atlas da Notícia, o Censo IBGE 2022, registros de outorgas da Anatel e a base proprietária de inventário da Alright — desenham um mapa que deveria provocar vergonha institucional.
O Nordeste lidera essa tragédia silenciosa: 46,3% dos seus municípios são desertos de notícias. São 830 cidades e quase 6,5 milhões de adultos sem acesso a informação local. É a região que mais sofre com o que Milton Santos chamava de “espaços opacos” — territórios que existem no mapa, mas não existem no circuito da informação, do capital e da decisão.
O que choca mais, porém, é que o Sudeste — a região que concentra a maior parte dos veículos de comunicação do país — ainda carrega 32% de municípios desertos. São 533 cidades, a maioria no interior de Minas Gerais e São Paulo. O estado mais rico da federação tem, dentro de si, um país inteiro de silêncio informacional.
O Sul, com sua autoimagem de região desenvolvida e conectada, também guarda 31,7% de municípios invisíveis.
| Região | Municípios desertos | % do total | Adultos sem mídia |
|---|---|---|---|
| Nordeste | 830 de 1.794 | 46,3% | 6.490.962 |
| Norte | 159 de 450 | 35,3% | 1.207.771 |
| Sudeste | 533 de 1.668 | 32,0% | 2.694.877 |
| Sul | 378 de 1.191 | 31,7% | 1.326.579 |
| Centro-Oeste | 74 de 467 | 15,8% | 317.839 |
| Total | 1.974 de 5.570 | 35,4% | 12.038.028 |
Não estamos falando de vilarejos isolados na Amazônia profunda. Cidade Ocidental, em Goiás, tem quase 65 mil habitantes adultos e nenhuma mídia local. Horizonte, no Ceará, tem 54 mil. Santa Izabel do Pará, 54 mil. São cidades que produzem, consomem, votam, pagam impostos — mas não informam e não são informadas.
São países dentro do país que operam no escuro.
A pergunta que fica não é se esses 12 milhões de pessoas existem. É por que continuamos planejando como se não existissem.
A pergunta que fica não é se esses 12 milhões de pessoas existem. É por que continuamos planejando como se não existissem.
— Domingos Secco Junior, NexOS
III. O outro lado do espelho: a hiper-concentração dos oásis
Para entender a dimensão do problema, é preciso olhar também para o outro extremo. Os oásis — territórios com alta densidade de veículos — são ilhas de abundância informacional cercadas por oceanos de silêncio.
São Paulo sozinha concentra 1.684 veículos de comunicação cadastrados. Brasília tem 886. Rio de Janeiro, 800. Curitiba, 731. Os dez maiores oásis reúnem mais de 6.400 veículos — quase o mesmo número que os 3.596 municípios com alguma mídia local somados.
A informação no Brasil não é distribuída. É aglomerada em clusters urbanos que funcionam como câmaras de eco sofisticadas, enquanto o resto do território opera como zona de sombra.
E aqui está a perversidade do modelo: o financiamento da mídia brasileira — historicamente dependente de publicidade de grandes anunciantes e verbas governamentais — privilegia praças com audiência mensurável. A receita publicitária segue a concentração demográfica, criando um ciclo vicioso em que quem já tem mídia atrai mais investimento, e quem não tem fica cada vez mais invisível.
O dinheiro vai para onde já existe mídia. A mídia existe onde já vai o dinheiro. O resto do país que se vire.
IV. Cinco países que ignoramos
O trabalho das Tramas do Invisível permite identificar pelo menos cinco “países” dentro do Brasil cujo potencial econômico, cultural e estratégico permanece sistematicamente negligenciado:
O país dos desertos informativos
Quase 2.000 municípios sem nenhum veículo de comunicação. Nesses territórios, não existe inventário programático. A única mídia que chega é de plataforma — Google, Meta, TikTok. O dinheiro entra pelo território, mas sai imediatamente para servidores no exterior. É uma economia de atenção extrativista: extrai dados, extrai consumo, mas não devolve nada ao ecossistema local.
O país da rádio e do impresso
Dos 40.759 veículos mapeados pelo Atlas da Notícia, 8.540 são rádios e 8.812 são impressos. Em centenas de cidades médias, a rádio AM/FM é a única fonte de informação local. O mercado de mídia tratou esses meios como obsoletos. A realidade territorial mostra que eles são, em muitos lugares, a única infraestrutura de informação que existe. Ignorar rádio e impresso não é ser moderno. É ser ignorante sobre o próprio país.
O país da cauda longa inexistente
São 20.062 veículos classificados como "online". Parece muito. Mas estão brutalmente concentrados em capitais e cidades-polo. A famosa "cauda longa" da internet brasileira — aquela promessa de que o digital democratizaria tudo — é muito mais curta do que o mercado supõe. Conexão sem conteúdo é infraestrutura oca.
O país das economias invisíveis
Municípios com vocações produtivas fortíssimas — agricultura, turismo, mineração, economia criativa — que não aparecem nos radares de planejamento porque não geram dados mensuráveis nos modelos tradicionais. Barreirinhas, no Maranhão, é destino turístico internacional com 43 mil adultos — e é um deserto de notícias. Quanto investimento de marca esse território poderia absorver? Não sabemos. Porque nunca olhamos.
O país dos gêmeos territoriais
A metodologia das Tramas revela algo que nenhum Excel mostra: municípios separados por milhares de quilômetros podem funcionar como gêmeos socioeconômicos — mesma estrutura familiar, mesma economia de base, mesmos padrões de consumo. Uma cidade do interior do Maranhão pode ser estruturalmente mais parecida com uma cidade do Paraná do que com a capital do seu próprio estado.
Case — Feira de Santana, BA: a encruzilhada do sertão vivo

A segunda maior cidade da Bahia movimenta R$ 3,4 bilhões por mês em Pix — mais de 20 milhões de transações mensais. Classificada pelo NexOS como “Riqueza Estável” com alto poder de consumo e crédito per capita de R$ 12.623, Feira é um oásis de mídia no sertão baiano. Com 23 veículos ativos cobrindo rádio, TV, impresso e digital, a infraestrutura informacional existe. E a maioria das agências de São Paulo não sabe apontá-la no mapa.
Cidade-feira, encruzilhada de rodovias (BR-101/BR-116), Feira abastece o sertão inteiro. São 72 mil jovens casais começando a vida, 57 mil idosos com renda estável, 46 mil mães e pais solo. O dinheiro circula entre feiras livres, mercadinhos, salões de beleza e postos da BR. A mídia local — liderada pelo Acorda Cidade, 30 anos de rádio matinal com 50 milhões de pageviews/ano no portal — é comprável via programática por qualquer agência do Brasil.
A questão não é se Feira tem público, mídia ou dinheiro. Tem os três. A questão é por que o mercado continua olhando só para Salvador.
Dados: Censo IBGE 2022, Atlas da Notícia, Banco Central (Pix), Acorda Cidade, Rede Alright. Case completo em live.nexos.now/tramas.
V. O custo sistêmico da cegueira territorial
A negligência com esses “vários países” internos não é apenas um problema de mercado publicitário. É um problema que corrói o tecido inteiro da sociedade brasileira.
Marcas perdem oportunidade. Há 12 milhões de consumidores adultos que nenhuma marca alcança com relevância local. Não são pessoas sem dinheiro — são pessoas sem endereço no mapa mental do mercado.
Veículos de comunicação perdem sustentabilidade. A concentração de receita nos oásis urbanos significa que a mídia local — onde existe — opera subfinanciada, dependente de verba pública, incapaz de investir em qualidade editorial.
Agências perdem capacidade de leitura. Times de mídia operam com modelos simplificados demais para dar conta de 5.570 municípios. Nenhum ser humano foi treinado para processar esse nível de interdependência territorial. Nenhuma equipe tem tempo hábil. Nenhum briefing pede isso.
Cidades perdem investimento. Municípios que não aparecem nos radares de mídia não aparecem nos radares de investimento. A invisibilidade informacional se converte em invisibilidade econômica.
A democracia perde qualidade. Territórios sem mídia local são territórios sem fiscalização, sem debate público, sem narrativa própria. A relação entre deserto de notícias e fragilidade democrática é padrão documentado globalmente.
O PIB perde potencial. Quando não enxergamos as economias territoriais, não as desenvolvemos. Cada município invisível é um micro-PIB desperdiçado.
O Brasil não cabe no modelo mental que usamos há 20 anos para fazer comunicação. Também não cabe nos modelos algorítmicos que um punhado de plataformas desenhou para processar dados privados, ignorando completamente o que acontece no território físico.
O Brasil não cabe no modelo mental que usamos há 20 anos para fazer comunicação. Também não cabe nos modelos algorítmicos que um punhado de plataformas desenhou para processar dados privados, ignorando completamente o que acontece no território físico.
— Domingos Secco Junior, Tramas do Invisível
VI. O tesouro ignorado dos dados públicos
Aqui reside talvez a ironia mais perversa de toda essa história.
O Brasil é um dos países com maior acervo de dados públicos, abertos e gratuitos do planeta. IBGE, RAIS, Censo Agro, INEP, DataSUS, Anatel, DataGeo, CadÚnico, dados de crédito, mobilidade urbana, clima, agricultura familiar, energia — são bilhões de linhas de dados que descrevem o país em profundidade.
Tudo público. Tudo nosso. Tudo já pago pelo contribuinte. E tudo sistematicamente subutilizado.
Enquanto isso, o mercado paga fortunas por soluções proprietárias que oferecem versões empobrecidas do que já existe em abundância no setor público. Compramos dados de segunda mão sobre um país cujos dados de primeira mão estão disponíveis de graça.
A metodologia das Tramas do Invisível, operacionalizada no NexOS, é em parte um movimento de reapropriação dessa riqueza informacional abandonada. Cruzar centenas de bases públicas, projetar dezenas de indicadores sobre 5.570 municípios, criar arquétipos familiares comparáveis nacionalmente — tudo isso usando dados que já existem, mas que nunca estiveram organizados de forma útil.
A tecnologia entra como viabilizadora, não como protagonista. IA, modelos semânticos, clustering algorítmico — são ferramentas de costura. O valor está no método: a capacidade de ler o território como relação, não como coordenada geográfica.
VII. Da negligência à inteligência
Quando uma marca descobre que Barreirinhas, no Maranhão, é um deserto de notícias apesar de ser destino turístico internacional, isso não é um problema. É uma oportunidade: ser a primeira presença informativa e publicitária relevante naquele território.
Quando um planejador de mídia descobre que dois municípios separados por dois mil quilômetros funcionam como gêmeos sociais, ele pode replicar estratégias com precisão cirúrgica.
Quando um investidor descobre que existem clusters territoriais com dinâmicas econômicas próprias que não aparecem em nenhum relatório de mercado, ele pode antecipar oportunidades.
A inteligência territorial não é um luxo analítico. É a pré-condição para operar com responsabilidade num país que tem dimensão continental e complexidade civilizacional.
VIII. O Brasil que não cabe no briefing
Continuamos planejando para um país que não existe — o país-cluster, o país-audiência, o país-CPM. Enquanto isso, o Brasil real pulsa em 5.570 frequências diferentes, cada uma com seu metabolismo, sua cultura, sua economia, sua temporalidade. E os 1.974 municípios que nem frequência própria têm representam a ponta visível de um iceberg de negligência estrutural.
O custo de não enxergar os vários países dentro do Brasil não é abstrato. É PIB não gerado. É investimento não realizado. É talento não desenvolvido. É consumo não alcançado. É democracia não exercida. É potencial transformado em silêncio.
O mapa que as Tramas do Invisível propõem não é um mapa de problemas. É um mapa de potenciais. De economias subterrâneas que esperam conexão com cadeias de valor. De comunidades que esperam ser vistas com relevância, não com generalismos. De territórios que esperam investimento que chegue com contexto, não com fórmula.
O Brasil é enorme, vivo e cheio de sentido. Só que construímos um sistema inteiro — de mídia, de marketing, de dados, de decisão — que foi desenhado para enxergar apenas uma fração dele.
A pergunta que fica não é se esses vários países dentro do Brasil existem. Eles existem. A pergunta é: até quando vamos continuar planejando como se não existissem?
Sobre o autor: Pyr Marcondes é Founder & CEO da Macuco DAO Group (“The DAO Network”) e tem 50 anos de jornalismo editorial de negócios, econômico e financeiro. Conselheiro da ABAP. Autor de Exponencial: Além da Fronteira Humana.
Fontes e metodologia: dados e metodologia territorial da plataforma NexOS, criada por Domingos Secco Junior, fundador da Alright. Inclui dados do Atlas da Notícia / Projor, Censo IBGE 2022, Banco Central e Anatel, além do inventário Alright — 40.759 veículos mapeados em 3.596 municípios.
Este ensaio é parte da série Tramas — inteligência territorial como método. Dados exploráveis no NexOS Explorer.