
Campina Grande, PB: 64% de todo o crédito da cidade já é financiamento imobiliário
Conhecida pelo maior São João do mundo, Campina Grande também é uma das cidades de maior renda da Paraíba, atrás só da capital. Mas é no crédito de longo prazo que mora o dado mais forte: 64% de tudo que a cidade toma emprestado já virou financiamento imobiliário, um sinal de riqueza que se acumula em tijolo.
Em Campina Grande, 64% de todo o crédito bancário da cidade já é financiamento imobiliário — a maior fatia de tijolo já registrada nesta série. É o dado mais forte de uma cidade que o resto do país conhece por outro motivo: o maior São João do mundo, sanfona e fogueira tomando cada esquina de bairro em junho. A festa dura uma quinzena. O crédito de longo prazo conta a história do ano inteiro, e ela aponta pra outro lugar: apartamento, prédio, financiamento de trinta anos.
Com 419.379 habitantes, a segunda maior cidade da Paraíba também é uma das de maior renda do estado, perdendo só pra capital, João Pessoa. A própria Trama do NexOS chama Campina Grande de “Engrenagem da Borborema”: gente, mercadoria e notícia convergindo pro centro, vindas de todo o Agreste paraibano, girando entre comércio, universidade e festa, no alto da serra onde o vento frio dá um tempero próprio a essa máquina urbana barulhenta.
O crédito que virou tijolo
O Banco Central mede isso mês a mês pelo ESTBAN: o saldo de financiamento imobiliário na cidade foi de R$ 2,90 bilhões em janeiro de 2024 para R$ 3,79 bilhões em dezembro de 2025, alta de 31% em dois anos. Essa fatia também cresce mais rápido que o crédito total da cidade: a participação do imobiliário na carteira bancária saiu de 59,9% para 63,9% no mesmo período, os 64% do título.
O Pix segue o mesmo desenho de dinheiro que entra e vira patrimônio: de R$ 2,94 bilhões recebidos por mês em janeiro de 2024 para R$ 4,49 bilhões em junho de 2026, alta de 53%. O crédito de longo prazo cresce junto com o volume que circula no dia a dia, sinal de riqueza que não fica parada: ela se acumula em imóvel.
Atrás da fogueira, uma indústria que pesa
A composição do PIB (R$ 12,91 bilhões em 2023) mostra outro lado da cidade: serviços somam 53,9% do valor agregado, a administração pública 23,5%, a indústria 22,1% e a agropecuária apenas 0,4%. Essa fatia industrial é quase 1,5x a média do próprio estado da Paraíba (14,9%), e também supera, por margem mais estreita, a média de todo o Nordeste (20,9%).
Os empréstimos do BNDES seguem desenho parecido: comércio e serviços lideram, com R$ 195,0 milhões emprestados, à frente de transporte rodoviário (R$ 150,8 milhões), outras atividades (R$ 92,1 milhões), mecânica (R$ 27,3 milhões) e celulose e papel (R$ 16,8 milhões).
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Quase a maior renda da Paraíba
Pela declaração de Imposto de Renda, Campina Grande é a 4ª cidade da Paraíba em renda média por declarante (R$ 78.627 ao ano), entre as 222 do estado. À frente só estão a capital, João Pessoa, e duas cidades com pouquíssimos declarantes (13.731 e 2.176), uma base pequena demais pra gerar uma média confiável. Tirando essas exceções estatísticas, Campina Grande é, na prática, a cidade de maior renda da Paraíba fora da capital. A renda mensal média da cidade, R$ 2.595, já é 2,1 vezes a mediana de todos os municípios paraibanos.
A frota confirma esse poder de compra: 107.599 automóveis contra 93.738 motocicletas, os carros levemente à frente, com 47% da frota contra 41% de motos. O modelo mais comum ainda é a Honda CG 125 (17.775 unidades), sinal de que a moto segue essencial no deslocamento do dia a dia, mesmo numa cidade de renda mais alta.
A engrenagem tem atrito
A própria Trama do município registra os atritos dessa engrenagem que não para. No centro, pedestres, ambulantes, comerciantes formais e carros disputam a mesma calçada estreita, tomada por mercadoria e moto estacionada; parques e campos de bairro usados para pelada vivem sob ameaça constante de virar prédio ou estacionamento. A pressão imobiliária que sustenta o financiamento em alta também tem seu preço: perto de universidades e do corredor de saúde, casa térrea virando pensão, clínica ou prédio pequeno muda o perfil de quem mora ali e encarece o aluguel. E a festa que define a cidade também gera atrito: no auge do São João, o som de fogueira, forró e fogos avança madrugada adentro, dividindo quem celebra e quem precisa dormir cedo para o expediente do dia seguinte.
O rádio da serra e o site que lidera
Campina Grande é um hub de mídia completo: 14 rádios sediadas, 6 TVs geradoras e 10 sites locais. A Rádio Caturité 104.1 FM lidera com 45.179 escutas de streaming por mês, à frente da Rádio Campina FM 93.1 (43.159) e da Rádio 98 FM Correio (41.302).
No digital, paraibaonline.com.br é o site líder da cidade, com 533.620 pageviews por mês (o maior site local já visto na série depois do portal6, de Anápolis), e o único, entre os 10 sites locais, plugado na compra programática de anúncios. Os outros nove operam só por negociação direta.
Onde o sinal ainda não chega
A cobertura de internet é desigual: 98,7% da área urbana está coberta, mas a zona rural fica em 51,4%, sem infraestrutura de fibra óptica — o perfil que a ANATEL classifica como “conectividade mista, em expansão”, com capacidade ainda limitada a áudio, texto e imagem leve.
TV grátis domina a intensidade de consumo: Coolita e TCL Channel lideram com folga. No segundo bloco, estudo, fé e música aparecem lado a lado: CifraClub, Toda Matéria e um app de terço católico dividem espaço com Scores365 e Sofascore, o consumo de quem estuda, torce e reza no mesmo celular. Domínio a domínio, pela intensidade de acesso por usuário:
Como Campina Grande quer ser falada
Quem fala com Campina Grande fala com quem senta na cadeira de plástico na calçada ao entardecer para comentar o dia, ouve rádio ligada de fundo na oficina e na barbearia, e trata o São João como herança viva, não turismo de passagem. É o tom de quem mistura pressa de metrópole regional com o hábito de conversa demorada de cidade de interior.
No fim, Campina Grande prova que a festa mais famosa do Brasil e o dado mais discreto da cidade caminham juntos: enquanto o São João segue sendo a imagem que a cidade vende para o país, é o financiamento imobiliário, subindo mês a mês, que mostra onde a riqueza de fato se acumula.
Explore o raio-X de Campina Grande no NexOS · Prefeitura: campinagrande.pb.gov.br · Perfil IBGE: cidades.ibge.gov.br/brasil/pb/campina-grande. Veja também Juazeiro do Norte e o método das 4 camadas.
Esta peça faz parte da série Tramas, inteligência territorial como método. Dados cruzados pelo NexOS: IBGE (PIB, Censo 2022), BNDES (operações indiretas por subsetor), Banco Central (Pix, ESTBAN: crédito e financiamento imobiliário), Receita Federal (IRPF por município), DETRAN (frota), ANATEL e inventário de mídia local curado. Perfil simbólico, redes invisíveis e classificação: metodologia Tramas do Invisível.

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